A necessidade da poesia

Como diria Rubem Braga, escritor, jornalista e cronista brasileiro: “A poesia é necessária”. Em tempos de medos, angústias e incertezas, o qual todos estamos atravessando neste mundo, a poesia ancora esperanças em nossos corações. Ela é como um ar puro que nos auxilia. Ao respirarmos a poesia, ela oxigena a nossa mente e nos faz refletir de formas e percepções diversas sobre os sentimentos e as dores que habitam em todos nós. Neste processo de autorreflexão e também de isolamento que todos estamos vivenciando, a poesia pode nos trazer um momento, que seja, de leveza e de descanso, de paz e até de encanto. Através das palavras do poeta, podemos nos transportar, por um momento, a um lugar seguro dentro de nós, talvez um novo lugar, ainda a ser descoberto e reconhecido pelo ser. Talvez um lugar conhecido, porém já esquecido por nós. Ela pode nos transportar a um outro tempo vivido, acender memórias, trazer-nos emoções. Ou apenas, nos guiar pela escuridão das nossas sombras e mesmo assim ainda mostrar-nos belos jardins. O poder da palavra e da poesia sabe bem o poeta, que sem elas não sobrevive. Abrindo a temporada de poesias aqui no blog, começo pelo poeta das “miudezas”, Manoel de Barros.

O Livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Manoel de Barros ( Trecho do livro “Manoel de Barros — Poesia Completa” Editora Leya).
Fotografia registrada por mim, na Fazenda Sítio Velho, Areias-SP.

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