Pedra do Baú

Antes que termine o mês de agosto, preciso compartilhar aqui no blog a experiência incrível de subir a Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí-SP. Primeiramente quero falar um pouco sobre este lugar e como o conheci. O Complexo Pedra do Baú é formado por três formações rochosas denominadas Bauzinho, Ana Chata e Pedra do Baú, que fazem parte da Serra da Mantiqueira. Hoje, o complexo é preservado e gerido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo em conjunto com a Prefeitura de São bento do Sapucaí.

A primeira vez que fui conhecer o complexo, em 2012, ainda nem morava aqui na região do Vale do Paraíba, namorava o meu marido que já morava aqui. Ele me levou para conhecer a região e o lugar. Fizemos a trilha até a Pedra do Bauzinho e de lá já se tem uma vista privilegiada da Serra da Mantiqueira e da Pedra do Baú. Pode-se subir parte do caminho ao Bauzinho de carro. É uma trilha bem tranquila e a vista vale a pena. Posteriormente, fomos inúmeras vezes ao Bauzinho, levando amigos para conhecer, ou mesmo, apenas para curtir o lugar e almoçar no Restaurante da Pedra, que se localiza próximo e é um ponto de apoio aos aventureiros e escaladores que desejam subir a Pedra.

Conta-se na história da Pedra que os primeiros a subi-la foram os irmãos Cortez, habitantes de São Bento do Sapucaí, em 1940. Posteriormente, em 1943, foram construídas, fincadas, as escadas de ferro que existem até hoje na Pedra. Existiu lá no topo um abrigo, que foi o primeiro abrigo de Montanha do Brasil, mas que infelizmente com o tempo foi depredado por vândalos.

A Pedra do Baú possui 1950 metros de altitude. Hoje é possível subir com guias especializados, equipamentos de segurança e é disponibilizado pela prefeitura da cidade, monitores que ficam se revezando no pé da Pedra, na subida e lá em cima, com rádios de comunicação, organizando o fluxo de subida e descida dos grupos. Há também um pequeno grupo de socorristas com maca que ficam no pé da Pedra caso alguém precise de ajuda, ou passe mal e precise ser removido do local.

O meu esposo já havia subido algumas vezes a Pedra. Antes de me conhecer, ele chegou a subir sem equipamentos, apenas pela escada. Mas nem ele indica, nem eu, pois é muito arriscado. Então, mais uma vez ele estava combinando com dois amigos de subir a Pedra, subida pelas escadas. Pegaria os equipamentos de segurança emprestados. Estava tudo combinado, iria só ele e mais dois amigos. Eu nem pensava em ir, primeiro por causa da nossa bebê de 1 ano e 5 meses, nunca havia a deixado com ninguém o dia inteiro, como não temos familiares e nem rede de apoio aqui, só havia uma pessoa de confiança a qual eu podia deixar e que a Maria já conhece e está acostumada, mas eu fiquei receosa pois seria a primeira vez e por muitas horas. Também achava que o aniversário que eu iria domingo seria no sábado (10/08), o dia marcado pra subir. Havia me confundindo. Geralmente o pessoal que vai com ele dorme aqui em casa e sai cedinho, pois além do deslocamento até São Bento do Sapucaí-SP, a trilha de ida, a subida, a descida e a trilha de volta somam cerca de 7 horas, dependendo de quanto tempo o grupo demore nas trilhas e o tempo que fique lá em cima.

Bem, foi chegando mais próximo da data, minha comadre e amiga, esposa de um dos nossos amigos que iria, resolveu que iria subir também. E ficamos conversando sobre. Na quarta-feira eu olhei o calendário e vi que o compromisso de aniversário que iríamos não era no sábado, então se a nossa amiga Bete pudesse ficar com nossa filha no sábado, eu também poderia subir. Fiquei pensativa e já me convidei para a trilha rs. Meu esposo ficou receoso, pois segundo ele, achava que eu não conseguiria devido desgaste físico e altura. Deu-me uma desanimada e eu fiquei chateada com ele, pois achei que ele não queria me levar. Mas conversando com nosso amigo e coach de vida (piada interna) que também já havia subido a Pedra, na verdade ele estava me preservando, pois não sabia se eu estava em condições físicas de subir, também por eu estar fora do pique de trilhas e nunca ter subido uma altura dessas na vida. No caso, se eu desistisse no meio do caminho, teria que ficar para trás sozinha esperando o retorno deles por horas. Então, mesmo tendo falado com a Bete e ela ter se disponibilizado a ficar com nossa filha, eu ainda não tinha certeza se iria.

Fisicamente eu me sentia super apta, pois voltei ao meu peso de antes da gravidez e estou praticando exercícios físicos, musculação, yoga e nunca fui sedentária. Então, não entendia por que meu esposo falou que talvez eu não conseguisse.  Dias antes de irmos eu conversei com minha professora de Yoga, Regina, que é escaladora, querendo saber dicas. Ela conversou comigo, perguntou se tenho medo de altura e explicou que na prática  da escalada é importante estar presente totalmente, com atenção plena e respirar consciente (não muito diferente do que fazemos no Yoga). Me incentivou a ir e disse que eu tiraria de letra. Confesso que fiquei mais confiante após conversar com ela.

A sexta-feira chegou, Bete me confirmou que conseguiria vir e chegar bem cedo aqui. Então estava tudo certo. Iríamos os cinco. Eu, minha comadre Ana, Daniel (meu esposo) e mais dois amigos nossos. Um baita desafio para mim e para minha amiga. Preparamo-nos psicologicamente, fomos com roupa e calçados apropriados, nossas mochilas com frutas e lanchinhos leves e água. Meu marido ainda levou uma pequena caixa térmica com água de coco em sua mochila, um salame bem gorduroso e salgado, barras de cereal e carboidrato em gel de absorção rápida. Ele foi o nosso guia. Só por que estava tudo certo, Maria Flora, nossa filha, resolveu dormir meia-noite (não queria dormir, eles advinham) e acordar de 6h da manhã (dificilmente acorda este horário) rs. Eu esperava sair e deixar ela ainda dormindo, mas por um lado foi bom ela ver todo o movimento de pessoas aqui em casa e dar tchau pra ela, para ela saber que voltaríamos.

A subida

Chegamos por volta das 9h no restaurante da Pedra, que só abre às 11h, mas permitem utilizar o estacionamento e banheiros como ponto de apoio. Alongamos e cada um pegou seus equipamentos. Seguimos para a trilha até a Pedra. Trilha bem íngreme e puxada. Os primeiros 20 minutos de trilha eu fiquei bem ofegante, depois senti que meu corpo acostumou. Muito linda a vista durante a trilha e a vegetação composta por flores do campo, araucárias imensas e morangos silvestres. Paramos duas vezes para descansar. Levamos pouco mais de 1h de trilha para chegar até o pé da Pedra. Ou seja, você já chega meio cansado, mas a empolgação e o corpo quente não deixam você notar. Chegando lá, havia grupos descendo a Pedra e outros se preparando para subir, inclusive, havia crianças em um grupo e elas subiram, com o guia na frente segurando uma corda de segurança a qual elas estavam ligadas.

Descansamos alguns minutos, tiramos fotos e Daniel começou a instrução de como utilizar os equipamentos de segurança na subida, como dar os nós e utilizar o mosquetão. Sempre  fincando um mosquetão em degraus acima de nós, caso escorregássemos estaríamos seguros pela corda. Instruções ok, vamos à subida.

A ordem ficou a seguinte: Daniel (esposo e guia) primeiro, a frente de todos, depois eu, abaixo de mim o Evandro e depois a Ana e o Marcos. Desta galera, só Daniel e Marcos já haviam subido. Durante a subida, percebi que a escada não é uma reta, ela acompanha as formações rochosas e há trechos de transição de escadas que você não consegue se apoiar tão bem e precisa de muita cautela, atenção, equilíbrio nos pés e de utilizar a força dos braços para segurar o corpo. Há pequenos trechos que você anda na rocha sem estar fincado pela corda, até fincar na escada seguinte. Eu, totalmente sem experiência com o mosquetão, fiquei um pouco atrapalhada na hora de abrir e fechar, demorava mais tempo, pois a luva prendia no mosquetão, acabei retirando a luva e subindo sem luva, mas na descida senti as mãos. Eu consegui (não sei como) bater a cabeça numa pedra durante a subida, mas nem senti muito pois o capacete protegeu, eu estava tão atenta aos degraus da escada que não vi a pedra acima da minha cabeça, por isso é essencial estar com capacete e equipamentos.

A subida durou cerca de uma hora. Já imaginou você por uma hora pendurado numa Pedra há mais de 1000 metros de altura? Uma verdadeira aventura. Paramos duas vezes na subida, em pontos de apoio na própria pedra e curtimos a vista enquanto bebíamos uma água e comíamos uma fruta . Enfim, chegamos ao topo. Sensação de vitória e liberdade. Consegui. A vista é belíssima, incrível, todo o seu redor é horizonte a perder de vista, montanhas e serra, uma vista inédita aos meus olhos, um vento e uma energia diferente. A Serra da Mantiqueira é linda. Lá em baixo avista-se o Bauzinho e a reserva de Mata Atlântica. Tiramos muitas fotos, comemos nossos lanches, bebemos água, andamos pelos lados da Pedra. Ficamos cerca de 1h e meia lá em cima, olhei se meu celular estava pegando sinal para saber notícias da Maria, a Bete havia mandado fotos e áudios, ela estava ótima. Por volta de 13h30 começamos a descida. Uma Dica: cada pessoa leve pelo menos 2 litros de água para consumo próprio e consuma com paciência. Antes de descermos dei um pouco da minha água a um grupo que iria descer e nenhum deles tinha mais água. Ou seja, levaram pouco e consumiram tudo na subida.

A descida

Na descida você já descobre logo que aquele ditado “Pra descer, todo santo ajuda” é mentira tá gente. Ninguém ajuda não. É você com você. Apesar de que, como disse meu amigo, chamei por Deus e meu Mestre algumas vezes. Achei a descida mais difícil. Primeiro por que após uma hora e meia de conversas e descanso lá em cima, o corpo esfriou e já sentimos bem o cansaço. E então, temos que começar todo o caminho de volta. Descer quase 2.000m de altura e enfrentar a trilha. Como disse um amigo meu que é escalador: “A subida é só metade do caminho”. Tem o fato de você estar de costas e seu campo de visão dos degraus ser diferente. E também a questão da gravidade. É outra sensação. Acredito que, quem tem fobia ou medo de altura enfrente seu maior desafio na descida. Descobri que não tenho medo de altura, olhei diversas vezes para baixo sem pânico, meu medo era só de escorregar hahahaha. Então usei muito mais atenção, aliás, toda a minha atenção na descida. E desci muito mais devagar que subi, pois minhas mãos desprotegidas começaram a doer um pouco a parte da pele já estava ferida devido alergia a sabão; As transições de escadas foi mais desafiante na descida, pois segurava o peso do corpo nos braços e com muito mais atenção onde pisar e os dois joelhos estavam doendo um pouco. Segui devagar, respirando e tranquila, nas transições surgia uns “Ai meu Deus e agora? Onde eu piso?”. Daniel e Evandro desceram bem mais rápidos e acabei perdendo eles de vista em alguns trechos e ficando meio que sozinha na Pedra (havia outras pessoas de outros grupos) e perdi a Ana e o Marcos de vista também que vinham acima de mim. Ufa, devagar, consegui chegar lá embaixo, acredito que demorei cerca de meia hora ou mais, a mais que a subida, ou seja, no mínimo 1h e meia. Não me recordo a hora que cheguei lá embaixo.

Ficamos esperando nossos amigos concluírem a descida deles, para seguir com a trilha. No final da descida minha amiga passou mal, nosso amigo chamou Daniel, mas nada fora de controle, teve uma exaustão física, acompanhada de dor de cabeça, Daniel subiu para auxiliá-la e concluímos todos bem, sãos e salvos. Os joelhos lascados, mas bem. Uma surpresa, minha coluna que é só a Graça de Deus, não incomodou nada, nem parecia que eu tenho escoliose.

Descansamos e seguimos para a trilha de volta ao ponto de partida. Uma trilha sem fim. Um pedregulho infinito, não acabava mais, o sol se pondo e a danada da trilha era infinita… “Senhor, quem poderá nos ajudar?” Hahahaha Bateu o cansaço físico na trilha, meu esposo dizia brincando: “Eu falei que você não tinha condição (risos dele)”. Mas ele estava super feliz que eu subi com ele, todo empolgado. Virei o pé algumas vezes por que é uma descida íngreme na trilha, a sorte que a bota de trilha que eu estava é boa. Dica: Use calçado apropriado e que proteja o tornozelo. Segundo relatos, já aconteceu de uma moça ter de ser resgatada por torcer o tornozelo durante a trilha. Voltamos conversando, chegamos ao restaurante e ponto de apoio por volta das 17h e pouco. Missão cumprida. Valeu a pena todo o esforço junto aos amigos. Foi uma experiência muito especial de superação de limites. Praticamente uma experiência espiritual. Muito marcante pra mim, sou grata por esta oportunidade e indico.

Hoje eu sei que essa galera que sobe e escala pedra por aí não é maluca, eles tem técnica, foco e equilíbrio. Admiro. Chegamos em casa exaustos, mas felizes. E Maria Flora ficou ótima, dormiu a tarde, brincou no parquinho do condomínio, comeu e segundo a Bete não deu trabalho nenhum (incrível como filho só dá trabalho pra mãe, né? Rs). Cheguei a nossa casa ela estava toda animada e sorridente esperando.

Fato interessante

À noite, ao deitar para dormir, aconteceu algo diferente até então pra mim. Uma sensação diferente, toda vez que eu estava a pegar no sono, me vinha a sensação que eu estava lá, no alto da Pedra, e eu via a vista do horizonte como se estivesse lá, nítida, na minha mente. Então eu abria os olhos e estava deitada no colchão. Quando estava quase pegando no sono de novo, vinha a vista e a sensação nítida de estar no alto da Pedra, vendo aquele horizonte. Não sei explicar. Mas no dia seguinte minha amiga comentou que aconteceu algo parecido com ela a noite, antes de adormecer.

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.” (Eduardo Galeano).

 

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