Instinto Materno

Sou mãe de primeira viagem, assim como muitas. Para nós mães de primeira vez tudo é novo e muitas vezes bate a insegurança, naturalmente. Nesta escola estamos todas no maternal. Mas uma das coisas que percebi desde que minha filha Maria Flora nasceu é que junto com a maternidade desenvolvemos naturalmente o instinto materno. Instinto, aquela sensação primitiva, original, visceral, natural, intrínseca. Uma conexão profunda com a “cria” e consigo. Sim, aquele instinto que os animais mamíferos também apresentam com suas crias. Vejo que esse mesmo instinto materno também auxiliou a sobrevivência da humanidade até aqui. O instinto materno nos faz sentir quais são as necessidades reais do filho, seu estado físico e emocional. Necessidade de proteger e acolher, cuidar e prover tudo que o filho necessita até que ele consiga caminhar por si. É mais que uma intuição, é um elo infinito entre dois corações.

A ciência tem desenvolvido suas teorias para explicar esta ligação. Mas na prática, nos dias de hoje, vejo que, o que precisamos é observar mais em nós como se apresenta este instinto que nós mães desenvolvemos. Não ignorá-lo em nome de uma teoria qualquer, ou, de uma opinião alheia ou por causa de comparações feitas pelas pessoas. As outras pessoas que não convivem e não conhece seu filho realmente sabem mais das necessidades dele do que você que é a mãe? Temos que emponderar o nosso maternar. Assumir o nosso lugar, até para podermos fazer escolhas mais conscientes, à medida que crescemos nesse papel. Ninguém conhece mais o nosso filho do que nós que o criamos. Vejo que estar atento e conectado é essencial. Lembrando-se que somos seres únicos no universo, com experiências e percepções distintas e estamos todos em processo de aprendizagem.

Escrevo a respeito, pois o que tenho visto por aí afora é uma maternidade vendida por muitos com padrão a ser seguido. Com isso, muitas mães se culpam e se sentem pressionadas a seguir o padrão de maternidade que tem sido mostrado e vendido por empresas, por blogueiras famosas, por pseudo profissionais que se auto intitulam profissionais da área de saúde, porém, sem formação específica e aprofundada no assunto o qual estão influenciando e até ditando padrões a serem seguidos. Muita calma nessa hora. Não vamos comprar (nem acreditar ou trazer pra si) tudo que nos é “vendido” com logotipo bonito, site organizado e milhares de seguidores. Principalmente quando o assunto é maternidade e educação de filhos.

Ouvindo experiências de outras mães e lendo histórias e experiências compartilhadas, vejo que algumas mães, em dado momento, se desconectam do seu instinto materno, da realidade do seu sistema familiar, das formas que pode criar o seu filho no seu dia a dia, do que realmente precisamos observar e transformar na criação e relação com o filho, do essencial, para se adequar a um padrão vendido por aí. Muitas vezes isso está sujeito acontecer com qualquer uma, pela fragilidade do momento que atravessam e também por muitas das vezes atravessarem sozinhas, ou mesmo, se sentindo assim. É o fruto da desconexão e dissociação impostos, de diversas maneiras, pela sociedade. Com isso, as mães se cobram e se culpam demasiadamente, por vezes, por situações que são normais, como por exemplo: bebês que acordam durante a noite por algum motivo a ser observado ou necessidade a ser atendida, naturalmente. Muitas mães acabam recorrendo ao que é oferecido amplamente pelo mercado da maternidade, “soluções rápidas” que prometem “milagres” mas que na verdade são extremamente danosas tanto para a mãe quanto para a criança. Lembrando que estamos falando de seres humanos, bebês.

O objetivo do sistema é impor uma visão mecanizada do comportamento de bebês e crianças. Isso mesmo. Impõe um padrão robotizado e generalizado para obviamente mercantilizar a forma “ideal” de criação, de alimentação e também a forma de lidar com as emoções dos bebês e crianças e assim faz muitas mães desacreditarem de sua capacidade de criar o seu filho de forma mais simples, sem o consumo desenfreado, intervenções desnecessárias para a idade e consultorias diversas. As mães então se desconectam do seu instinto materno e tentam encaixar seus filhos, muitas vezes bebês ainda, nos padrões estimulados por propagandas patrocinadas e disponíveis facilmente em cursos diversos de “adestramento”. Sim, isso é real, muitas mães gastam muita grana com isso, muitas vezes caem em golpes (consultorias picaretas, cursos diversos oferecidos por pessoas despreparadas) e se frustram muito com os resultados. Percebem depois, na prática, que se tivessem seguido seu instinto materno teria sido menos danoso para si e para o filho e teriam feito outras escolhas. Como dizia a canção: “É preciso estar atento e forte”.

Como mãe de primeira viagem, o que vejo que precisamos urgentemente é cada dia nos conectar mais conosco, estar verdadeiramente presentes na vida e na criação do filho, um exercício diário que eu também me considero aprendiz e observar o nosso instinto materno. Para que, se nós ou nossos filhos precisarem em algum momento de algum auxílio específico ou alguma intervenção especializada, durante esta jornada, sabermos identificar e procurar as pessoas e profissionais realmente capacitados no assunto.  Para que aprendamos vivenciando, conhecendo, observando, estando presente na criação, desenvolvendo esta relação, sentindo tudo.  E assim, mesmo em meio ao turbilhão de informações e padrões disseminados e vendidos o tempo todo na sociedade, na televisão e nas redes sociais, conseguir desenvolver e fortalecer o nosso próprio maternar. Não submeta as decisões da sua maternidade a outrem. Lembre-se: você é a mãe. Com toda responsabilidade, aprendizado, frustrações, tristezas, expectativas, alegrias, apego, cansaço e amor que isso traz. É tudo seu. Siga seu instinto materno.

Maria Flora-25.jpg

Fotografia da Maria Flora mamando registrada pela fotógrafa Raquel Pereira (@rakbarboza).

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